Pessoas de lugares diferentes comportam-se de maneiras diferentes, vivenciam culturas diferentes. Isso se manifesta na fala, nas vestimentas, na alimentação, etc, etc. Seguindo o raciocínio, posso afirmar que também a concepção de "moradia" e os métodos de construção civil devem ser diferentes.
Aqui em Barão Geraldo é comum notar "manchas" de cimento, sobre o asfalto, na frente das casas. Demorou um tempo até eu notar o motivo da existência daquelas manchas: os pedreiros, quando envolvidos na reforma ou construção de uma casa, preparam a mistura de areia e cimento ali, na frente da casa e sobre o asfalto. Terminada a obra, vão-se os pedreiros e ficam as marcas de cimento.
Para quem é acostumado com a "construção civil" na região do Vale do Itajaí sabe que os pedreiros invariavelmente utilizam-se de uma espécie de caixote de madeira, onde é feita a mistura do traço. A reação imposta pelo etnocentrismo me diz que esta é uma solução muito melhor para o problema da preparação do cimento, pois afinal, tem um impacto menor no ambiente próximo à construção, e não causa uma estranha disfunção estética de ruas maculadas pelo cimento.
Mas a minha preferência/bairrismo me diz pouco sobre este "estilo tecnológico" da construção civil campineira. Por qual motivo, enfim, não se usa um caixote de madeira para preparar/armazenar o cimento? Provavelmente, jamais saberei os motivos verdadeiros dos pedreiros de Barão Geraldo. Uma concepção diferente sobre o espaço público da rua? Uma menor distinção entre as categorias materiais envolvidas - cimento, asfalto, paralelepípedo? Uma cultura profissional, que transfere-se de mestre pedreiro para aprendiz? Ou apenas um detalhe que não necessita/não terá explicação alguma, nunca?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Knights of Cydonia
(...)
Come ride with me,
Through the veins of history,
I'll show you a god
Who falls asleep on the job.
Muse, Knights of Cydonia - Black Holes and Revelations (2006)
Come ride with me,
Through the veins of history,
I'll show you a god
Who falls asleep on the job.
Muse, Knights of Cydonia - Black Holes and Revelations (2006)
sexta-feira, 17 de abril de 2009
quinta-feira, 16 de abril de 2009
domingo, 29 de março de 2009
After years of waiting... (3)
Demorou algum tempo para processar a experiência de ter assistido ao show do Radiohead. Os efeitos das expectativas, dos anos de espera e o sentimento de que realmente o Radiohead é a "última banda que vale a pena" produziriam um relato apaixonado, mas também totalmente imparcial. Hoje (uma semana depois) já me sinto um pouco mais apto para escrever a respeito.
Havia um tempo em que eu não suportava a banda de Thom Yorke & Cia. Por desconhecimento, achava que tudo que eles produziam era lamentação vã, chorosa e adolescente. Creep era um tormento e Fake Plastic Trees era uma tortura. Era como se eles fossem uns proto-emos, falsamente atormentados e imensamente pretensiosos. E essa impressão persistiu durante muito tempo, até o dia em que esbarrei em um CD-R que além das supracitadas canções, trazia duas pérolas renegadas: Karma Police e No Surprises - ambas provenientes do fantástico lote de canções do disco OK Computer.
No Surprises, em especial, transmitia um sentimento de inabilidade social e deslocamento que soava genuíno e curiosamente singelo. Saíam as guitarras e entravam glokenspiels, saía a gritaria e entrava um desespero um tanto conformista. E era lindo de doer. Para mim, indeciso entre ser bancário ou não, entre me adaptar ou não, entra a adolescência e a vida adulta, aquilo era o que eu precisava ouvir. Thom Yorke foi, de certo modo, o mais próximo que tive de um analista.
No entanto, o OK Computer era mais do que aquilo. Até hoje, não há uma música dele que eu não considere primorosa em diversos aspectos, na forma e no conteúdo. Se as letras falavam da alienação e mazelas do fin de siècle, a produção e a sonoridade já apontavam para o século 21. Basta ouvir Airbag, no fone de ouvido e em alto e bom som, para entender do que eu falo. Era rock, sem ser roqueiro no sentido estrito. As guitarras ainda pegavam pesado (ouça a "épica" Paranoid Android), mas o eletronismo e a experimentação eram as linhas condutoras da obra. Sim, obra. Como em obra de arte.
A comparação com o rock progressivo veio logo, e tão rapidamente quanto surgiu foi refutada pela banda. De fato, art rock parece ser um termo mais apropriado - não para uma obra específica da banda, mas pelo conjunto de sua produção. Curiosamente, a banda ganhava as manchetes e os louros da fama, mas ficava cada vez mais atormentada por isso: o documentário Meeting People is Easy, sobre a turnê do disco OK Computer, é o retrato do lado negro da fama de rockstar. Fala sobre a inexistência de privacidade, a incapacidade de corresponder à expectativas, sobre a histeria e, sobretudo, sobre o estado deplorável da banda na época.
Algum tempo depois, a banda pariu (no sentido mais doloroso do termo) o esquisitíssimo Kid A. Sem guitarras, sem refrões, minimalista, eletrônico e quase asséptico. Era como um suicídio comercial e o adeus ao mundo do rock. De fato, vendeu como água, mas era estranho, incômodo, bizarro. Nunca vou esquecer do dia em que, hipnotizado pelo disco, tentei convencer um amigo da beleza daquilo, do soco no estômago que era Everything in its Right Place. Como diria Yorke: "I'd tell all my friends but they never believe me/They'd think that I've finally lost it completely".
Para mim não importava. O Radiohead apontou uma nova direção para mim. E eu cheguei a acreditar que o rock estava morto e enterrado. O futuro pertencia ao Radiohead, e a partir dali Sigur Rós e similares passaram a habitar meu playlist. Felizmente, tanto eu quanto o meu amigo, estávamos errados. O Kid A era absurdamente inovador e, não!, o rock como conhecemos não era ainda algo dispensável. Por muito tempo, fiquei imaginando como seria testemunhar o cruzamento do show de rock com o experimentalismo do Radiohead, para juntar o melhor de dois mundos.
E essa foi a minha digressão praticamente instantânea, ao perceber que eu estava prester a observar um fenômeno tão raro quanto um disco voador pousando, ou um Deus baixando na Terra. Ali estava o Radiohead. A poucos metros, em carne e osso. Ao vivo, sem a barreira e a produção dos vídeos que eu via pela internet. Assim, quando 15 Step começou a ser executada pelos músicos percebi que eu testemunharia algo único - o show da minha banda favorita e a superação de uma idolatria baseada em meios de comunicação. Eu consumiria o Radiohead sem intermediários.
O preço do ingresso valeu cada centavo. Show de rock atípico, havia momentos em que um silêncio de 35 mil pessoas causava um espanto. Houve, é claro, o tradicional "singalong", mas foi espantoso ver como aqueles ingleses desengonçados construíam ali, diante de meus olhos incrédulos, paisagens musicais impecáveis. Arte-rock, sem dúvida. E pensar que eu cheguei a pensar que os shows de rock não valiam mais porra nenhuma...
O Los Hermanos da abertura apequenou-se, é claro. E até que gosto deles. Mesmo o Kraftwerk - praticamente os criadores da música eletrônica pop - com sua excentricidade robótica, serviu de coadjuvante de luxo. Detesto a tietagem histérica, mas, para mim, a noite era do Radiohead, e eu observei meio catatônico cada segundo da catarse coletiva. Saí de lá com um sorriso que deve ter durado horas e com lembranças muito, muito boas - porque confirmei minha suspeita de que o rock ainda pode ser algo relevante.
(e pensar que eu não gostava da banda)
http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1054962-7085,00.html
http://www.omelete.com.br/musi/100018773/Radiohead_no_Just_a_Fest.aspx
http://musica.uol.com.br/ultnot/2009/03/23/ult89u10438.jhtm
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/03/23/e230325758.asp
Havia um tempo em que eu não suportava a banda de Thom Yorke & Cia. Por desconhecimento, achava que tudo que eles produziam era lamentação vã, chorosa e adolescente. Creep era um tormento e Fake Plastic Trees era uma tortura. Era como se eles fossem uns proto-emos, falsamente atormentados e imensamente pretensiosos. E essa impressão persistiu durante muito tempo, até o dia em que esbarrei em um CD-R que além das supracitadas canções, trazia duas pérolas renegadas: Karma Police e No Surprises - ambas provenientes do fantástico lote de canções do disco OK Computer.
No Surprises, em especial, transmitia um sentimento de inabilidade social e deslocamento que soava genuíno e curiosamente singelo. Saíam as guitarras e entravam glokenspiels, saía a gritaria e entrava um desespero um tanto conformista. E era lindo de doer. Para mim, indeciso entre ser bancário ou não, entre me adaptar ou não, entra a adolescência e a vida adulta, aquilo era o que eu precisava ouvir. Thom Yorke foi, de certo modo, o mais próximo que tive de um analista.
No entanto, o OK Computer era mais do que aquilo. Até hoje, não há uma música dele que eu não considere primorosa em diversos aspectos, na forma e no conteúdo. Se as letras falavam da alienação e mazelas do fin de siècle, a produção e a sonoridade já apontavam para o século 21. Basta ouvir Airbag, no fone de ouvido e em alto e bom som, para entender do que eu falo. Era rock, sem ser roqueiro no sentido estrito. As guitarras ainda pegavam pesado (ouça a "épica" Paranoid Android), mas o eletronismo e a experimentação eram as linhas condutoras da obra. Sim, obra. Como em obra de arte.
A comparação com o rock progressivo veio logo, e tão rapidamente quanto surgiu foi refutada pela banda. De fato, art rock parece ser um termo mais apropriado - não para uma obra específica da banda, mas pelo conjunto de sua produção. Curiosamente, a banda ganhava as manchetes e os louros da fama, mas ficava cada vez mais atormentada por isso: o documentário Meeting People is Easy, sobre a turnê do disco OK Computer, é o retrato do lado negro da fama de rockstar. Fala sobre a inexistência de privacidade, a incapacidade de corresponder à expectativas, sobre a histeria e, sobretudo, sobre o estado deplorável da banda na época.
Algum tempo depois, a banda pariu (no sentido mais doloroso do termo) o esquisitíssimo Kid A. Sem guitarras, sem refrões, minimalista, eletrônico e quase asséptico. Era como um suicídio comercial e o adeus ao mundo do rock. De fato, vendeu como água, mas era estranho, incômodo, bizarro. Nunca vou esquecer do dia em que, hipnotizado pelo disco, tentei convencer um amigo da beleza daquilo, do soco no estômago que era Everything in its Right Place. Como diria Yorke: "I'd tell all my friends but they never believe me/They'd think that I've finally lost it completely".
Para mim não importava. O Radiohead apontou uma nova direção para mim. E eu cheguei a acreditar que o rock estava morto e enterrado. O futuro pertencia ao Radiohead, e a partir dali Sigur Rós e similares passaram a habitar meu playlist. Felizmente, tanto eu quanto o meu amigo, estávamos errados. O Kid A era absurdamente inovador e, não!, o rock como conhecemos não era ainda algo dispensável. Por muito tempo, fiquei imaginando como seria testemunhar o cruzamento do show de rock com o experimentalismo do Radiohead, para juntar o melhor de dois mundos.
E essa foi a minha digressão praticamente instantânea, ao perceber que eu estava prester a observar um fenômeno tão raro quanto um disco voador pousando, ou um Deus baixando na Terra. Ali estava o Radiohead. A poucos metros, em carne e osso. Ao vivo, sem a barreira e a produção dos vídeos que eu via pela internet. Assim, quando 15 Step começou a ser executada pelos músicos percebi que eu testemunharia algo único - o show da minha banda favorita e a superação de uma idolatria baseada em meios de comunicação. Eu consumiria o Radiohead sem intermediários.
O preço do ingresso valeu cada centavo. Show de rock atípico, havia momentos em que um silêncio de 35 mil pessoas causava um espanto. Houve, é claro, o tradicional "singalong", mas foi espantoso ver como aqueles ingleses desengonçados construíam ali, diante de meus olhos incrédulos, paisagens musicais impecáveis. Arte-rock, sem dúvida. E pensar que eu cheguei a pensar que os shows de rock não valiam mais porra nenhuma...
O Los Hermanos da abertura apequenou-se, é claro. E até que gosto deles. Mesmo o Kraftwerk - praticamente os criadores da música eletrônica pop - com sua excentricidade robótica, serviu de coadjuvante de luxo. Detesto a tietagem histérica, mas, para mim, a noite era do Radiohead, e eu observei meio catatônico cada segundo da catarse coletiva. Saí de lá com um sorriso que deve ter durado horas e com lembranças muito, muito boas - porque confirmei minha suspeita de que o rock ainda pode ser algo relevante.
(e pensar que eu não gostava da banda)
http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1054962-7085,00.html
http://www.omelete.com.br/musi/100018773/Radiohead_no_Just_a_Fest.aspx
http://musica.uol.com.br/ultnot/2009/03/23/ult89u10438.jhtm
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/03/23/e230325758.asp
sexta-feira, 20 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
irritado (sem motivo aparente)
Acho que tenho um pragmatismo de classe operária. E acho que isso nunca vai me abandonar. Ao observar as pessoas felizes-e-brilhantes da Universidade, fico com uma certa impressão de que sou uma anomalia. A maior parte vive dramas que nem de longe me comovem ou sensibilizam. São problemas que me parecem microscópicos, banais e platônicos. Sim, problemas que habitam um mundo de conjecturas, planos e desdobramentos que tem pouca correlação com as contingências da vida real.
Quase sempre fui um white collar, é verdade. Uns tantos anos no "dinâmico" ramo da informática e mais uns oito trabalhando em um banco. Mas também tive meus momentos chão-de-fábrica. Já soldei, cortei, pintei, montei cercas & portões. Também cortei tecido, separei botões, varri chão de malharia. Confesso: nunca fiz isso para viver - eu quebrava um galho aqui e ali. No entanto, minha família (ou seja, meu blueprint para o mundo) sempre foi - salvo uma curta estadia na classe média - uma família de trabalhadores pouco especializados, mas pragmáticos. Tive uma infância relativamente boa em termos materiais, mas também já tive que comer pão seco e testemunhar minha mãe acordar diariamente às quatro, para "pegar" no primeiro turno.
Sou alfabetizado, formado e deformado pela escola pública. Tive que pagar minha faculdade vendendo uma boa parte dos meus melhores anos. Nunca tive padrinho, mecenas, patrono. Gosto do Bukowski, e me aborreço facilmente com quase tudo que pareça um pouco mais afetado. E assim vou medindo também as pessoas. É um pouco duro, é verdade, e pode ser injusto com alguns. Mas convenhamos: a inteligentzia se esconde em alguma coisa que parece uma torre de marfim, mas que quase sempre parece um castelo de areia. É fácil ser intelectual de buteco, com papai pagando as contas e mamãe lavando as roupas. Os dilemas de uma vida mais mundana são mais contundentes que a filosofia pela filosofia.
Isso não quer dizer que as pessoas não tenham seus méritos, qualidades e peculiaridades. Não significa que tenho um intenso ódio contra a máquina. Sou pragmático, e um pouco insensível com certas sensibilidades. Só isso. Tem dias em que acho que enxergo o mundo através de lentes cinzas, opacas.
Quase sempre fui um white collar, é verdade. Uns tantos anos no "dinâmico" ramo da informática e mais uns oito trabalhando em um banco. Mas também tive meus momentos chão-de-fábrica. Já soldei, cortei, pintei, montei cercas & portões. Também cortei tecido, separei botões, varri chão de malharia. Confesso: nunca fiz isso para viver - eu quebrava um galho aqui e ali. No entanto, minha família (ou seja, meu blueprint para o mundo) sempre foi - salvo uma curta estadia na classe média - uma família de trabalhadores pouco especializados, mas pragmáticos. Tive uma infância relativamente boa em termos materiais, mas também já tive que comer pão seco e testemunhar minha mãe acordar diariamente às quatro, para "pegar" no primeiro turno.
Sou alfabetizado, formado e deformado pela escola pública. Tive que pagar minha faculdade vendendo uma boa parte dos meus melhores anos. Nunca tive padrinho, mecenas, patrono. Gosto do Bukowski, e me aborreço facilmente com quase tudo que pareça um pouco mais afetado. E assim vou medindo também as pessoas. É um pouco duro, é verdade, e pode ser injusto com alguns. Mas convenhamos: a inteligentzia se esconde em alguma coisa que parece uma torre de marfim, mas que quase sempre parece um castelo de areia. É fácil ser intelectual de buteco, com papai pagando as contas e mamãe lavando as roupas. Os dilemas de uma vida mais mundana são mais contundentes que a filosofia pela filosofia.
Isso não quer dizer que as pessoas não tenham seus méritos, qualidades e peculiaridades. Não significa que tenho um intenso ódio contra a máquina. Sou pragmático, e um pouco insensível com certas sensibilidades. Só isso. Tem dias em que acho que enxergo o mundo através de lentes cinzas, opacas.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Nomes para uma banda... (parte II)
Grounded Exercise
Ciclo Otto
Britney's Wig
Eu Não Suporto Renato Russo
To Eat Their Bacon
Budistas Facistas
Sous Jeune et Tais Toi
Maiô de 68
Ciclo Otto
Britney's Wig
Eu Não Suporto Renato Russo
To Eat Their Bacon
Budistas Facistas
Sous Jeune et Tais Toi
Maiô de 68
quarta-feira, 4 de março de 2009
Se algum dia eu tiver uma banda...
...gostaria que ela se chamasse:
Dança de São Vito (ou, em inglês, St. Vitus Dance)
Monsters Away
Filhas de Karl Marx (é só um nome, não precisa ter conotoção política)
South of Heaven
Daffy Duck's Shotgun (possível violação de copyright)
Bukowski Syndrome
Insane in the Mainframe
Symbionese Liberation Army
Luz Vermelha
(...)
Dança de São Vito (ou, em inglês, St. Vitus Dance)
Monsters Away
Filhas de Karl Marx (é só um nome, não precisa ter conotoção política)
South of Heaven
Daffy Duck's Shotgun (possível violação de copyright)
Bukowski Syndrome
Insane in the Mainframe
Symbionese Liberation Army
Luz Vermelha
(...)
sábado, 7 de fevereiro de 2009
The Bends
Por volta do final de 1994, o Radiohead era uma banda encurralada entre o sucesso de Creep (o single de 1992) e as expectativas dos milhares de órfãos de Kurt Cobain, que procuravam o próximo rock star atormentado para ser adorado; Creep era um bom single - quem não se lembra dos golpes de distorção desferidos por Jonny Greenwood? - mas não era suficientemente inovador para escapar de sua própria aura pop/grunge e livrar a banda do rótulo de "one hit wonder"; sobretudo, seu sucesso ofuscava todo o resto da produção da banda, como o irregular (mas promissor) disco Pablo Honey (onde, talvez, You seja um ponto alto, acompanhado por Anyone Can Play Guitar).
Da suposta insatisfação da banda com o showbizz e da mente criativa de seus membros, surgiu uma saída. Quase como uma declaração de princípios ou panfleto, o single My Iron Lung representava, simultaneamente, uma auto-crítica um tanto irônica e um avanço estético sem precedentes para a banda. Quando Thom Yorke canta "this is our new song/just like the last one/a total waste of time/my iron lung" está se referindo ao sucesso anterior de maneira um tanto cifrada, um tanto ambígua, relacionando o hit com os equipamentos de respiração artificial dos hospitais (o iron lung do título e da letra) - um apoio, mas ao mesmo tempo, uma restrição. Se as letras da música começam a demonstrar aquele tipo de insatisfação que se tornaria marca registrada de Yorke, a execução era arrebatadora. Gravada ao vivo, no London Astoria, foi lançada daquele modo visceral, urgente, fascinante e impecável! Somente o vocal foi regravado posteriormente em estúdio. Temos ali, uma grande banda (com três guitarristas esmirilhando seus instrumentos sem dó, uma cozinha coesa), uma composição que faz o Pablo Honey parecer coisa de criança pequena e uma letra genial. Estava dado o primeiro passo para escapar da sombra de Creep e de Cobain.
Meses depois, a banda lançou seu segundo LP, chamado The Bends. Melancólico em essência, mas pontuado por rocks competentes, era uma evolução natural - tudo fluía naturalmente do pueril Pablo Honey em direção ao terreno cerebral consagrado posteriormente em OK Computer. No Brasil, a música Fake Plastic Trees ficou conhecida por ter sido utilizada em um comercial de televisão. É uma boa (e tristonha) balada, mas não reflete o conteúdo total do disco. Planet Telex, a primeira canção do disco, investe em um leve experimentalismo, com teclados etéreos e timbres de guitarras carregados de eco se misturando, enquanto Yorke afirma que "tudo está quebrado". Mas, de fato, nem tudo está quebrado. The Bends vêm em seguida, mantendo o bom nível do disco e mostrando mais coesão do que disfuncionalidade. Para quem gosta do Radiohead guitarreiro, é um prato cheio. Aqui, eles tomam o caminho iniciado em My Iron Lung e o ampliam.
Mas isso fica para outra hora...
Da suposta insatisfação da banda com o showbizz e da mente criativa de seus membros, surgiu uma saída. Quase como uma declaração de princípios ou panfleto, o single My Iron Lung representava, simultaneamente, uma auto-crítica um tanto irônica e um avanço estético sem precedentes para a banda. Quando Thom Yorke canta "this is our new song/just like the last one/a total waste of time/my iron lung" está se referindo ao sucesso anterior de maneira um tanto cifrada, um tanto ambígua, relacionando o hit com os equipamentos de respiração artificial dos hospitais (o iron lung do título e da letra) - um apoio, mas ao mesmo tempo, uma restrição. Se as letras da música começam a demonstrar aquele tipo de insatisfação que se tornaria marca registrada de Yorke, a execução era arrebatadora. Gravada ao vivo, no London Astoria, foi lançada daquele modo visceral, urgente, fascinante e impecável! Somente o vocal foi regravado posteriormente em estúdio. Temos ali, uma grande banda (com três guitarristas esmirilhando seus instrumentos sem dó, uma cozinha coesa), uma composição que faz o Pablo Honey parecer coisa de criança pequena e uma letra genial. Estava dado o primeiro passo para escapar da sombra de Creep e de Cobain.
Meses depois, a banda lançou seu segundo LP, chamado The Bends. Melancólico em essência, mas pontuado por rocks competentes, era uma evolução natural - tudo fluía naturalmente do pueril Pablo Honey em direção ao terreno cerebral consagrado posteriormente em OK Computer. No Brasil, a música Fake Plastic Trees ficou conhecida por ter sido utilizada em um comercial de televisão. É uma boa (e tristonha) balada, mas não reflete o conteúdo total do disco. Planet Telex, a primeira canção do disco, investe em um leve experimentalismo, com teclados etéreos e timbres de guitarras carregados de eco se misturando, enquanto Yorke afirma que "tudo está quebrado". Mas, de fato, nem tudo está quebrado. The Bends vêm em seguida, mantendo o bom nível do disco e mostrando mais coesão do que disfuncionalidade. Para quem gosta do Radiohead guitarreiro, é um prato cheio. Aqui, eles tomam o caminho iniciado em My Iron Lung e o ampliam.
High and Dry é a primeira balada do disco. É cândida e tenra na execução, mas a letra não é exatamente uma propaganda de margarina. É acompanhada de perto por Fake Plastic Trees, desagradando os roqueiros de carteirinha, mas demonstrando que é possível ser, ao mesmo tempo, singelo e inteligente. Se existe nas letras de Thom Yorke qualquer apelo ao sentimentalismo e ao romantismo, ele normalmente estará associado como uma certa desconfiança, um quê de decepção e de fossa, devidamente interpretadas pelo vocalista. Bones anima o disco, novamente as guitarras alternando entre ecos, efeitos e distorções, guiadas por um baixo bem marcado e citações ao Prozac e Peter Pan. Nice Dream, outra balada carregada no violão, destaca-se pelo vocal choroso de Yorke, cordas e backing vocals bem arranjados e vai crescendo para dar lugar à genialidade dos guitarristas Ed O´Brien e Jonny Greenwood.
O que vem depois? Duas porradas! Just (não perca o enigmático clipe) alterna de humor e leva o ouvinte para uma digressão sobre o egoísmo humano. Greenwood novamente se sobressai e arranca um solo estiloso, calcado em efeitos, que faria Tom Morello ficar invejoso. Em seguida, a nunca-por-demais-citada My Iron Lung, encerra a primeira metade do disco, indicando o cardápio variado que os ingleses tem para oferecer: da depressão à paranóia, com uma parada no sarcasmo e desprezo.
O clima na segunda metade do disco vai ficando mais soturno. A seqüência estabelecida com Bullet Proof (I Wish I Was), Black Star e Sulk é uma trilha perfeita para uma dor de cotovelo e para os momentos mais introspectivos. Talvez o Radiohead tenha ficado marcado por muito tempo (e com razão) por esta faceta de sua produção musical, mas é preciso ressaltar que eles estabeleceram, para o bem ou para o mal, um filão adotado por bandas como Travis, Coldplay e Muse. A grande diferença a favor do Radiohead é o ineditismo e a produção pouco afeita às convenções do pop. E a conclusão é pode ser tirada a partir exatamente da última música do disco, Street Spirit, linda de doer, original e executada com apuro - dotada de um clima soturno, mas ainda apontando para algo mais. No caso da banda, esse algo mais viria dois anos depois com o impecável OK Computer.
Mas isso fica para outra hora...
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